A Secretaria de Educação de Piúma trouxe algumas novidades
para o ano letivo de 2013. Algumas muito positivas e que devem gerar um avanço significativo
na qualidade da educação no município. Porém, no meio do pacote de novidades
está a inclusão do ensino religioso no Ensino Fundamental. A
iniciativa, parece, é bem intencionada. Quase sempre está ligada à preocupação
com a formação humana dos estudantes. Mas é preciso atentar para o fato de que
isso pode acentuar ainda mais a discriminação relativa à questão religiosa.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (L9394/96) considera
em seu artigo 33 que o ensino religioso é parte integrante da formação básica
do cidadão. A lei ainda deixa a critério dos sistemas de ensino sua
regulamentação e a definição dos conteúdos de ensino.
Há uma confusão muito grande sobre a finalidade do ensino
religioso. Há quem defenda que seu fim deva ser formar indivíduos mais éticos,
mais humanos, combater a violência, etc. A tese não tem o menor fundamento, uma
vez que os Parâmetros Curriculares Nacionais já trazem os temas transversais,
que devem ser trabalhados em todas as disciplinas com a finalidade da formação
humana dos estudantes. Trazem temas como ética, cidadania, saúde, sexualidade,
meio ambiente, etc.
A justificativa da existência da disciplina está na
necessidade de conhecermos as mais diversas formas de manifestação religiosa
para estimular a convivência e a tolerância. Assim, na escola é justo e lícito
que as crianças aprendam sobre as diversas religiões a fim de compreender a
diversidade e sensibilizar-se diante da manifestação de fé alheia. Porém, há de
se atentar que a lei é clara ao determinar que ficasse vetada qualquer forma de
proselitismo. O currículo do ensino religioso não pode, dessa forma, ser
confessional, uma vez que o Estado é laico. Deve ser, ao contrário, dedicado à
diversidade.
Sabemos que a doutrinação já está presente em várias escolas
públicas ainda que o ensino religioso não faça parte do currículo, sob alegação de que a maioria das crianças é de família cristã. Isso não se sustenta, dado que a escola é pública e universal. Ela é para todos e não para a maioria. Presenciamos
cotidianamente professores que fazem orações cristãs com seus alunos, reflexões
sobre datas e entidades exclusivamente cristãs, reflexões diversas sobre a
espiritualidade cristã e a afirmação da incontestável existência de um deus. Corre-se
o risco de acentuar essa prática diante do estabelecimento do ensino religioso
no currículo.
É comum ainda, aulas de ensino religioso carregadas de moralismos, sobretudo no campo da sexualidade. Não cabe à escola controlar ou condenar o comportamento sexual da sociedade, senão instruindo os estudantes de forma objetiva de todos os conhecimentos científicos relativos ao assunto.
É comum ainda, aulas de ensino religioso carregadas de moralismos, sobretudo no campo da sexualidade. Não cabe à escola controlar ou condenar o comportamento sexual da sociedade, senão instruindo os estudantes de forma objetiva de todos os conhecimentos científicos relativos ao assunto.
É preciso ensinar na escola que cultos afro-brasileiros são
um direito de seus fiéis. Que a macumba, o trabalho, o descarrego não são atos
objetivamente condenáveis e que é direito dos indivíduos fazê-lo, garantidos
pelo artigo 5° da CF; que há quem adore a Jeová e espere o Paraíso, há quem
acredite nos espíritos e espere outra reencarnação, há quem venere Maria e há quem
seja filho dos Orixás; que existem
pessoas que não acreditam na existência de nenhum deus e nem por isso são seres
humanos piores que os crentes.
Não acho que a introdução da disciplina seja uma iniciativa positiva, já que sabemos que nossas escolas não estão preparadas para
ensinar que macumba é legal, que está em conformidade com a lei e que a reencarnação faz parte da crença de alguns. Também não está preparada para enfeitar as salas para as festividades de Oxalá,
Oxossi ou Iemanjá, como fazem na Páscoa ou no Natal. Sabemos que a escola é, no âmbito religioso, extremamente
excludente e não há que se questionar que o impacto de um ensino religioso de
matriz cristã para as crianças oriundas de famílias que confessam outra fé ou
fé nenhuma é enorme, traduzindo-se na diminuição da auto-estima e da rejeição
de suas próprias origens. Acrescente a isso a dificuldade de trabalhar o tema nas
séries iniciais do Ensino Fundamental (1° ao 5° ano) e que o ensino religioso é
facultativo ao aluno.
4 comentários:
Achei o texto interessante, Abner, embora acredite que ele possa ter um final mais "assertivo" (onde exatamente quer chegar). A minha opinão sobre é tema é clara: a única abordagem que a escola pode oferecer da religião é a científica. Isso quer dizer que a referência transcendente (ou o "sagrado" para usar um termo mais difundido e, por isso mesmo, mais aberto a equívocs) não deve entrar em discussão. Neste caso, creio eu, a religião interessa ao espaço escolar como mais uma das experiências humanas (ao lado da científica, da estética, da ética...), sendo necessário fazermos uso da "suspensão do juízo" (ou epoché, para ser mais técnico) no que diz respeito ao "valor de verdade" das variadas manifestações desta experiência nos grupamentos humanos.
Neste caso, o viés de estudo é aquele dado pela[s] ciência[s] da religião e seus vários enfoques: filosófico, antropológico, sociológico, literário. Neste caso há que se perguntar se a idade (ensino fundamental) é apropriada para tais estudos ou se outras disciplinas não dariam conta do recado a partir de uma abordagem transdisciplinar do tema do pluralismo.
Eu ia me enfronhar melhor nisto, mas apareceu um concurso de última hora que me obrigou a deixar as aulas. Estava pensando em começar a partir da questão da dimensão axiológica da existência humana, entrando, depois no tema das manifestações religiosas propriamente dita.
Há casos que considero bizarros, como o do estado do Rio de Janeiro, que contrata um representante de cada religião. Neste caso perdemos tanto o princípio da laicidade quanto a benfazeja tentativa de refletir acerca do respeito mútuo.
Existe um debate interessante encabeçado pela FONAPER .
Não concordo com ensino religioso nas escolas O ensino religioso deve partir da família. A consciência cristã depende muito dos pais, na escolha familiar de qual religião seguir e incutir nas cabeças dos filhos. Em uma sala de aula há crianças com vários princípios religiosos que não pode ser trabalhados por um só educador. Qual é a religião defendida por esse educador? Ele tem que está preparado para falar a verdade. Verdade essa que existe nas palavras de Deus, a Bíblia. Tudo que esse educador falar, tem que ser comprovado na Lei de Deus. Repito: A Bíblia. Chega de blá, blá!!!A palavras de Deus é clara. As aulas desse educador será revistado diariamente por mim - Responsável pela formação religiosa de meu filho. Se ele contradizer com algo que não esteja claro na Bíblia, meu filho não participará mais de tal aula.
Concordo com o que disse esse anônimo. O que diz a Bíblia sobre Maria? O que diz sobre a trindade? A Bíblia ensina a oração de (ave Maria)? A oração do Pai Nosso tem na Bíblia. Observem que fala: Santificado seja o teu nome. Qual é o nome de Deus? Se me responder que é Senhor. Meu filho não vai concordar porque senhor é um tratamento não um nome. Venha o teu Reino. O que é o reino de Deus? Qual é o Deus verdadeiro que tem um nome, sem ser confundido com outros deuses que andam por aí? Na Bíblia o que diz sobre ídolos? (imagens). Esses são apenas alguns das muitas pesquisas que um educador deverá dominar com segurança para o meu filho. Concordo muito com esse anônimo. Entendi bem suas colocações e assino em baixo.
Esse último anônimo que me perdoe, mas você não entende nada sobre o que seja p ENSINO RELIGIOSO!! Meu querido (a)se você observar na fala no autor do texto ele trás que "o viés de estudo é aquele dado pela[s] ciência[s] da religião e seus vários enfoques: filosófico, antropológico, sociológico, literário"...ninguém aqui questionou ou ao menos criticou uma determinada religião. Se você possui alguma divergência com a religião católica fique com ela pra você, pois sinceramente, essa opinião sem argumento não interessa a mim, leitora, que possui um senso crítico a respeito de sua opinião. Independente de religiões, entre elas católica, protestantes, budistas, Hinduístas...o ensino religioso deve entrar em sala de aula para desenvolver, junto aos alunos, o respeito, o senso crítico e o entendimento da existência de várias outras religiões. E como o próprio autor mesmo disse, o Estado é Laico e cada um escolhe a religião que bem entender. Acredito que se você pudesse ter acesso as aulas de ensino religioso, iria desenvolver muito bem o senso de respeito!!! Sem mais!!
Andressa Alves
Estudante de Psicologia
Monitora de Ensino Religioso
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